Quando tiramos a canga


Por Liz Coutinho, uma mulher naturista e atual Diretora de Comunicação da AMANAT.


O ato de se despir começa muito antes de as mãos alcançarem o primeiro botão. Começa na véspera, quando ela verifica a previsão do tempo com uma desculpa já preparada. Começa na estrada, quando ela se pega de olho no espelho do carro, ajustando o que ainda nem está à vista. Começa na beirada da área naturista, quando a canga permanece enrolada no quadril dela por mais dez, vinte, quarenta minutos — e ainda está parada, tecnicamente livre, mas ainda acorrentada.

Sei disso porque já fui essa mulher na beirada. E porque, hoje, sou quem a observa chegar.

Neste Dia Internacional da Mulher, quero falar menos de roupa e mais de domesticação. Da forma como aprendemos que o corpo feminino não nos pertence por inteiro. Ele tem função, tem momento adequado, tem autorização implícita. Pode ser exibido, desde que dentro da lógica da sedução. Pode ser escondido, desde que dentro da lógica da vergonha. O que quase nunca nos ensinaram é simplesmente existir dentro dele.

Tenho um lugar preciso para essa conversa. Tem vento, tem sal, tem nome: Praia das Dunas, em Massarandupió. Vou ali como voluntária da AMANAT, e vou ali como mulher. Gosto de observar e de registrar — a luz que muda, os corpos que existem indiferentes, o cotidiano de quem já não se ocupa do próprio corpo. Mas, mesmo naquele espaço que parece suspenso do mundo, nenhuma mulher chega totalmente livre. Elas levam as próprias amarras na bolsa. E, às vezes, as amarram em volta do próprio corpo.
De longe, vejo a hesitação. A negociação delicada com a canga. A saída de praia que permanece. A retirada apenas do top. As transparências que cobrem quase nada e, ainda assim, cobrem. Não julgo. Reconheço. Sei como é estar ali, medindo o chão antes do próximo passo.

Essa resistência não é frescura nem fragilidade individual. É algo que foi ensinado ao longo de gerações. Aprendemos que o corpo nu tem dono, tem hora, tem propósito: fomos ensinadas a tirar a roupa apenas para tomar banho e para fazer sexo. Não é de estranhar, então, que mesmo ali, num espaço de nudez, busquemos ainda esconder o que conseguirmos. Que queiramos a experiência do lugar sem renunciar a toda a "proteção" de uma vez. Por isso nos empenhamos em encontrar razões para não nos expor. Razões que o mundo aceita sem questionar.

A menstruação é uma delas. Como se o sangue nos tornasse automaticamente inadequadas. Há séculos o corpo feminino é tratado como algo que precisa ser contido e higienizado. O ciclo virou sinônimo de impureza. Ainda ecoa.
Já fui surpreendida pelo meu ciclo ali, no meio da areia quente. Meu fluxo é intenso. Uso coletor menstrual. Exige disciplina, exige esvaziamentos constantes num território onde a natureza é abundante, mas a infraestrutura é mínima. Exige atenção. Mas não exige roupa. Nenhum tecido neutraliza o fato de que o corpo sangra. 
Permanecer nua menstruada não é heroísmo. Nem tampouco exclusividade minha. É coerência. Se defendo que o corpo não precisa pedir desculpas por existir, não posso exigir que ele peça justamente quando sangra. E quando, finalmente, deixo de esconder ou provocar, algo dentro de mim ainda estranha. Ainda demora um momento para entender que existir, sem mais, já é o bastante. Um bastante que o mundo lá fora raramente nos oferece.

Quando atravesso o limite da área naturista, algo muda. Mas seria desonesto dizer que tudo se dissolve. A nudez não apaga totalmente os marcadores sociais. Corpos ainda carregam raça, idade, peso, cicatrizes, deficiência. Carregam também sexualidade. Curiosamente, sem as roupas, os corpos perdem a força de vitrines e voltam a ser, antes de tudo, corpos. O olhar objetificador não desaparece. Mas enfraquece. O extraordinário, visto com regularidade, perde o poder do espetáculo.
Talvez estar em um lugar onde o extraordinário se torna comum seja a razão que me compele a orar quando estou ali. Não porque haja nada de sagrado no local em si. Talvez seja porque eu, despida de tudo que normalmente me define, fico simplesmente o que sou diante d'Ele. Fico parada. A água salgada, o sol e o vento me tocam. Algo se abre com a suavidade de uma porta que cede quando se para de forçar. O que flui de volta não são palavras: é a certeza sem argumento de que sou vista. Não avaliada — vista. Uma entrega que já é, ela mesma, uma confissão inteira: estou aqui, sem esconder nada.

Cada mulher que solta a canga atravessa uma fronteira. Inclusive eu, todas as vezes. Não é um gesto pequeno. É um desacordo silencioso com tudo o que nos ensinaram sobre decência, desejo e controle.
O medo nunca foi da nudez.
Foi de perder o controle sobre como somos vistas.
E controle, quando começa a cair, assusta mais do que qualquer peça de roupa no chão.

Comentários

  1. Gratidão por este texto. Fui a Massarandupió neste fevereiro. Não foi difícil para mim. Acho que nasci naturista, sem saber. Mas, reconheço que embora despida de vestes, é me sentindo pertencente, algo no meu íntimo estava em conflito. Pacifiquei-me em minha nudez, em Massarandupió, que estragou-me para as praias tradicionais.

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    1. Que presente receber esse relato. "Nasci naturista sem saber". Acho que muita gente se reconhece aí, inclusive eu. A nudez é a parte mais fácil. O conflito interior que você nomeia é o que demora mais para pacificar. E Massarandupió tem essa paciência de mar que não cobra o tempo que a gente leva.
      Bem-vinda ao clube das estragadas para as praias tradicionais. Não tem volta.

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  2. Observado a partir do olhar de um homem em construção, o texto revela mais do que uma experiência individual de nudez, pois expõe o longo processo de domesticação do corpo feminino produzido pela cultura. Ao narrar a hesitação diante da canga e o tempo necessário para se despir, a querida LIz mostra que a nudez não é apenas ausência de roupa, mas enfrentamento de camadas de vergonha, controle e expectativas sociais que foram ensinadas às mulheres ao longo de gerações. A reflexão evidencia que o corpo feminino raramente é autorizado a simplesmente existir, ele deve seduzir, esconder-se ou justificar-se. Ao mesmo tempo, o texto sugere que ambientes como o naturismo podem enfraquecer, ainda que não eliminar totalmente, a lógica da objetificação, permitindo que o corpo retorne a uma condição mais simples de presença. Para quem lê com empatia, surge uma percepção importante: a nudez feminina, tão frequentemente interpretada sob o prisma do desejo masculino, aqui aparece como gesto de autonomia e reconciliação com o próprio corpo. Assim, o texto convida também os homens a reconhecerem como o olhar social, do qual muitas vezes participam, influencia profundamente a forma como as mulheres habitam o próprio corpo, lembrando que o verdadeiro desafio não está na nudez em si, mas na cultura que transformou o corpo feminino em território permanentemente observado e regulado. HOMENS, VAMOS PENSAR JUNTOS?

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