Nudez, Proibições e Peru de Ano Novo: 5 Fatos Surpreendentes Sobre a Praia de Naturismo de Massarandupió
Imagem do acervo de Valdo (Ecoparque)
Por Liz Coutinho, Diretora de Comunicação da AMANAT
Introdução: O Paraíso Naturista e Seus Segredos
Esqueça tudo o que você acha que sabe sobre praias de nudismo. A história de Massarandupió, a icônica praia naturista no litoral norte da Bahia, não é um conto de paz e amor. É uma saga sobre advogados, lobbies políticos, protestos furiosos e um cardápio de Ano Novo surpreendentemente careta. É a história de um paradoxo: para criar um espaço de liberdade radical, seus fundadores tiveram que usar as ferramentas mais convencionais possíveis: regras rígidas, burocracia, ativismo judicial e até jantares de gala.
Por trás da fachada de coqueiros e areia branca, existe uma trajetória muito mais complexa e fascinante do que o ideal de liberdade espontânea que imaginamos. A realidade de Massarandupió é uma narrativa cheia de conflitos sociais, batalhas por inclusão e uma organização comunitária que desafia qualquer estereótipo hippie.
Prepare-se para descobrir que nem tudo é o que parece. Este artigo vai revelar os cinco fatos mais inesperados sobre a história e o funcionamento de um dos mais famosos redutos naturistas do Brasil, mostrando como a liberdade, mesmo nos lugares mais idílicos, precisa ser construída, negociada e defendida.
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1. Não é Liberdade Total: O Naturismo Tem Regras (e são bem rígidas)
O primeiro e maior mito a ser quebrado sobre praias de naturismo é a ideia de que "vale tudo". Massarandupió é a prova de que a filosofia naturista se baseia em respeito e conduta, não em libertinagem. A liberdade de ficar nu vem acompanhada de uma série de responsabilidades, e a violação delas tem consequências reais.
Em 2017, por exemplo, a notícia de um casal preso por praticar atos sexuais na praia circulou em portais como o 'Correio' e o 'R7'. O motivo foi claro: eles desrespeitaram as regras do local, que separam estritamente o naturismo de práticas sexuais em público. Essa regra não é nova. Uma placa, registrada em fotos de 2001, já estabelecia o código de conduta com uma clareza inquestionável, mostrando que a nudez não era apenas permitida, mas obrigatória em determinada área:
FINAL DA FAIXA DE ADAPTAÇÃO A NUDEZ. PASSAGEM PERMITIDA APENAS COM NUDEZ TOTAL! É ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO: 1 MANTER O RESPEITO E A FAMILIARIDADE NA RESERVA NATURISTA E ARREDORES
Essa preocupação com a ordem foi reforçada anos depois por Cesar Xisto, o então presidente da Associação Baiana de Naturismo. Em uma matéria de jornal de 2015, ele foi enfático ao se referir a curiosos e pessoas com comportamento inadequado: "Aqui não é zoológico". A frase resume a essência da filosofia local: criar um ambiente seguro e familiar. Longe de limitar a liberdade, essas regras são o que a garantem, assegurando que todos possam desfrutar do espaço com tranquilidade e respeito mútuo.
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2. Um Passado Controverso: A Praia Já Proibiu a Entrada de Gays
Em um movimento que prega a aceitação do corpo e a quebra de preconceitos, uma política de exclusão soa como uma contradição chocante. No entanto, a história de Massarandupió tem uma mancha sombria: por um período de seis anos, a praia proibiu oficialmente a frequência de homossexuais.
A revelação veio à tona em uma matéria da 'Folha de S.Paulo' de 11 de março de 2004. O texto noticiava o fim da proibição, afirmando que um "acordo na Justiça entre o GGB (Grupo Gay da Bahia) e a Abanat (Associação Baiana de Naturismo) quebrou uma rotina de seis anos --a proibição de homossexuais frequentarem a praia".
A origem dessa política discriminatória é confirmada por um artigo mais antigo, intitulado "Praia de naturismo é sensação na Bahia". A matéria explicava que a justificativa inicial para a regra era que, "na sua instauração, a praia naturista somente permite a entrada de casais heterossexuais". Aqui a ironia é cortante: um movimento nascido para derrubar preconceitos acabou erguendo seus próprios muros, trocando o tabu da nudez pelo preconceito da homofobia.
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3. A Luta Pela Inclusão: Ativismo e Mudança na Areia
A proibição da entrada de gays em Massarandupió não foi aceita passivamente. A mudança para uma política de inclusão não foi uma concessão voluntária, mas sim uma vitória conquistada através de muita luta e ativismo, que levou o conflito da areia da praia para os tribunais.
O protagonismo nessa batalha foi do GGB (Grupo Gay da Bahia), liderado na época por Marcelo Cerqueira. O mesmo artigo que mencionava a regra de "casais heterossexuais" também reportava a reação de Cerqueira, que prometeu entrar com uma representação no Ministério Público para derrubar a norma discriminatória. A indignação não ficou apenas nas palavras.
Uma foto histórica registra o momento em que ativistas do GGB foram à praia para protestar. A imagem é poderosa: homens nus segurando uma grande faixa com uma mensagem direta e inequívoca: "NENHUMA NUDEZ SERÁ CASTIGADA. ABAIXO A HOMOFOBIA. GRUPO GAY da BAHIA". O ato de protestar nu no próprio local da exclusão foi um símbolo potente da luta por direitos. A pressão funcionou. Como a manchete da 'Folha de S.Paulo' anunciou em 2004, "Gays ganham permissão para frequentar praia naturista na Bahia", selando a vitória por meio de um acordo judicial e transformando Massarandupió em um espaço, de fato, mais livre.
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4. Mais Burocracia do que se Imagina: A Batalha pela Oficialização
A imagem de um grupo de pessoas simplesmente decidindo tirar a roupa e fundar uma praia naturista não corresponde à realidade de Massarandupió. A existência oficial do local é resultado de uma pragmática operação política e legal. A transição de um ideal hippie para uma realidade protegida por lei exigiu estratégia e organização formal.
A história começa com a ABANAT (Associação Baiana de Naturismo), que promovia eventos no local desde 1998 de maneira informal. No entanto, para que a praia fosse reconhecida e protegida legalmente, era preciso mais. Foi um movimento estratégico: em 2 de maio de 1999, foi fundada a AMANAT (Associação Massarandupiana de Naturismo), uma entidade formal com CNPJ e estatuto, criada com o objetivo claro de obter a regulamentação oficial. ABANAT foi a pioneira social; AMANAT, o motor político.
O esforço deu resultado rápido. Ainda em 1999, a prefeitura emitiu um Decreto Municipal oficializando a praia. Anos mais tarde, em 2018, esse decreto foi transformado na Lei Municipal 164/2018. O apoio político foi crucial, como mostra um informativo de fevereiro de 2000, "Massarandupió Virou Manchete!". Nele, o então Prefeito de Entre Rios, Raul Malbouisson, garantia apoio financeiro e logístico ao projeto. Toda essa estrutura — CNPJ, estatuto, lobby político — contrasta fortemente com a imagem de um movimento espontâneo e anárquico.
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5. Réveillon Naturista: Uma Vida Social Surpreendentemente Tradicional
Se as regras rígidas e a burocracia quebram um estereótipo, a vida social dos primeiros naturistas de Massarandupió destrói outro: o de que eram radicais vivendo à margem das tradições. Um convite para o "1º Reveillon Naturista" de 1998 revela que, por trás da nudez, havia uma comunidade com uma vida social surpreendentemente... normal. Mais do que isso, era um ato estratégico de relações públicas.
Longe de ser um evento improvisado, a festa era um programa altamente organizado. O convite, direcionado à "Família naturalista", tinha preço fixo ("R$ 60,00 por casal") e programação detalhada: "música ao vivo", "queima de fogos" e "luau". Ao apresentar-se como um evento familiar e convencional, a comunidade sinalizava para a sociedade que não eram uma ameaça, mas pessoas comuns que apenas preferiam não usar roupas.
O golpe de mestre dessa estratégia de normalização estava no cardápio, que poderia estar em qualquer celebração de fim de ano de uma família brasileira tradicional:
* Ceia: Peru, farofa, arroz, macarronada, chester, maionese de batata e galinha assada.
* Mesa de Frios: Queijo, presunto, salaminho, azeitona, pastéis, pão de queijo.
* Mesa de Frutas: Maçã, pêra, melancia, uva, abacaxi, manga, mamão, melão e ameixa.
Essa ceia de Ano Novo, com peru e queima de fogos, não era apenas uma festa. Era uma declaração. Mostrava que o naturismo, para seus adeptos, não era sobre romper com todos os costumes, mas sobre integrar a nudez a uma vida comunitária e social perfeitamente reconhecível e, portanto, inofensiva.
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Conclusão: Liberdade é Construção
A história de Massarandupió nos ensina uma lição poderosa. Por trás da aparente simplicidade da nudez em uma praia paradisíaca, existe uma realidade complexa de regras, organização e, principalmente, lutas por direitos. A liberdade desfrutada hoje naquele pedaço de areia não nasceu pronta; ela foi negociada, legislada e defendida.
Massarandupió nos prova que a verdadeira liberdade não é a ausência de regras, mas a construção consciente de um espaço onde ela possa existir. E essa construção, seja na areia da praia ou no asfalto da cidade, é sempre um trabalho duro, burocrático e, por vezes, contraditório.

Muito bom esse artigo esclarecedor para os frequentadores e os moradores locais, muitos já esqueceram e os mais novos, nem sabiam disso.
ResponderExcluirApesar de ser do RJ, sempre frequentamos esse paraíso, acompanhamos todos esses eventos e somos testemunhas do entrosamento moradores e Naturistas visitantes, lembro de um congresso, onde foi organizado um jantar e ao escurecer, chegaram as carroças com os caldeirões de comida regional, pratos, talheres e tudo que foi preciso para o jantar dos presentes.
Nús e vestidos em perfeitas harmonia e colaboração.
Esse é o espírito de Massarandupió, o carisma que nos deixa sempre com saudades e apressamos o momento de retornar.
Em breve estaremos vivendo tudo isso novamente por aí.